Esplendor Brasil

Rosea Nigra

Medicina – um ideal, um sonho, uma luta

Autobiografia do médico catarinense de Araranguá, descendente de imigrantes italianos e austríacos,Iran Domingues Pizzolatti Alves, este livro é uma lição completa de vida. Pela sua inestimável experiência profissional, pela sua franqueza, honestidade intelectual e, principalmente, pela sua visão de mundo.

 

 O livro Medicina – um ideal, um sonho, uma luta, autobiografia do médico Iran Domingues Pizzolatti Alves, é uma lição completa de vida. Pela abrangência da obra, pela sua inestimável experiência profissional, pela sua franqueza, honestidade intelectual e, principalmente, pela sua visão de mundo. É cronologicamente um livro que conta a trajetória de um jovem sonhador e depois de um médico atuante - clínico-geral, obstetra e cirurgião-geral -, mas que extrapola a profissão em muito, dando uma visão apurada da medicina de uma época, do Brasil e de várias dimensões do ser humano.

     Catarinense de Araranguá, descendente de imigrantes italianos e austríacos, Iran formou-se em 1959 pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Paraná, numa das épocas de ambientes universitários mais ricos que vivenciou Curitiba, a capital paranaense. Como boa parte desse fervilhante meio estudantil, veio do interior, Joaçaba (SC), onde recebeu a rígida educação marista e já se aprofundava nos clássicos da história e da literatura universais. Teve que estudar muito para passar no "terrível vestibular”, como define até hoje; dividiu livros técnicos na Biblioteca Pública e da faculdade com os colegas, pois eram únicos. Deu duro no trabalho, noite e dia, durante todo o curso, para se sustentar. Sua primeira e mais marcante experiência profissional foi no interior de onde veio, o pequeno município de economia rural, Iomerê, encravado no exuberante vale do rio do Peixe, meio-oeste catarinense, fundado por filhos de imigrantes italianos e alemães.

Um médico integral

      Lá aprendeu a ser médico de fato. Teve experiências inusitadas, muitas hilariantes, atendendo gente nas colônias, a cavalo; atravessando riachos de barco e fazendo partos à luz do lampião. "Fiquei em Iomerê três anos e quatro horas”, diz o médico, com seu fino humor, que é uma marca indelével de toda a sua narrativa. Com a família crescendo, mudou-se para Joaçaba, onde trabalhou em hospital, montou clínica e foi também Médico Perito Local Preferencial do INSS. Lá consolidou a sua carreira e participou ativamente das atividades corporativas da categoria, durante 26 anos. Até que, aos 58 anos, no auge do pique de trabalho, teve um infarto, depois de um estresse profissional. Descontente com a forma de agir de muitos médicos recém-formados e a falta de ética, decidiu abandonar a medicina e mudar para Curitiba.

      Foi residindo numa chácara em Balsa Nova, região metropolitana de Curitiba, que o médico Iran passou a escrever e desenvolver todo o seu potencial intelectual. Ali ele escreveu também seis volumes de pequenos contos médicos, ainda inéditos. Sempre foi um apaixonado pela leitura. Começou a ler aos 9 anos e montou uma biblioteca, na qual os clássicos de literatura brasileira e universal ocupavam maior espaço, com mais de 3.500 volumes. Acredita que leu cerca de 5 mil livros. "Li ´A Origem das Espécies’, de Charles Darwin, no original, em francês, na Biblioteca Púbica do Paraná”, orgulha-se. Mas não só é a medicina e a leitura que marcam a vida do médico.

Histórias bem vividas

       A rigor, ele é um homem de múltiplas inteligências, como o inventor Santos Dumont, o arquiteto Oscar Niemayer e o seu colega médico-escritor Moacir Scliar. É um marceneiro de mão-cheia (esculpe em madeira); é um engenheiro amador (projetou a sua própria casa de campo); jardineiro e fruticultor (criou uma invejável horta orgânica em sua propriedade e um pomar com 580 pés de fruta); inventou uma máquina de fazer suco de uva; e desenha a lápis com muito primor, entre muitas outras habilidades.

      Toda a sua experiência profissional, suas paixões e visão crítica sobre a medicina praticada nos dias de hoje tornam indispensável a leitura desta autobiografia. Indispensável para quem sonha ser médico; indispensável para todos aqueles que acreditam que histórias de vidas honestas e bem vividas ajudam o ser humano a mudar e crescer.

A verdade é como o sol

      No livro, o médico Iran é cáustico com a medicina de hoje. "É gélida a relação entre médico e paciente. Não existe mais ser humano. O cliente é um ´joelho’, um ´intestino’, um ´dedo do pé quebrado’. Virou tudo apenas comércio. Além disso, o sistema de saúde pública brasileiro é uma vergonha, com hospitais sucateados. Felizmente, apesar disso, existem ainda muitos médicos que atendem humanamente seus pacientes”. Diz ele que sofre, hoje, ao ouvir uma notícia dizendo que uma parturiente deu a luz numa cadeira auxiliada pelo marido, enquanto a atendente conferia a carteirinha; ou que outra parturiente deu a luz num banco de jardim, em frente ao hospital, auxiliada pelos transeuntes, porque a médica disse que não tinha lençol para a maca. Na casa dos oitenta anos, mesmo assim, ele não deixa de ser otimista. Uma citação do filósofo, escritor e poeta norte-americano Ralph Emerson (1803-1882) espelha muito bem a visão do médico Iran sobre a medicina que acredita, o Brasil e o futuro: "A verdade é como o sol, que um eclipse pode escurecer, mas não apagar”.

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Confira algumas imagens do livro.