Esplendor Brasil

Rosea Nigra

POR ANTONIO RISÉRIO

O cinema maldito de Sganzerla, André e Edgard. A ditadura se impõe em todos seus filmes. É impressionante como esses cineastas se colocam, para fugir do signo militar.

 

 

Um pouco de cinema

 Antonio Risério

 

Tomei uma "overdose" de cinema baiano. O cineasta Edgard Navarro passou aqui em casa, num final de tarde, deixando cópias de todos os seus filmes. De quebra, o "Meteorango Kid", de André Luiz Oliveira. Coisa rara, fui dormir antes da meia noite e acordei às oito da manhã. Sentei frente à telinha e vi tudo. De vez. Quase cinco horas seguidas. E é sob o efeito dessa super-sessão que escrevo.

Vou começar pelo mais óbvio: o "específico fílmico". A linguagem. É curioso. Embora Edgard e André sejam cineastas baianos, a presença de Glauber não os asfixia. Glauber está presente, mas a uma certa distância. É mais uma reverência do que uma referência. E uma reverência mais ideológica, política e cultural do que estética. O que vem comendo por dentro, com tudo, é a contracultura. A contracultura, o tropicalismo em seu momento mais virulento, formal e semanticamente. A Tropicália, com suas bombas e suas pessoas-na-sala-de-jantar, seu esoterismo rogeriano, a luz mais terrível da lucidez de Caetano. E o chamado "cinema underground": ainda aqui, no texto verbal, na montagem, no ritmo urbano, no próprio olhar de cineasta para as coisas da vida e do mundo, muito mais o cinema de Rogério Sganzerla e Julinho Bressane do que o cinema de Glauber. E bem mais o de Sganzerla do que o de Julinho Bressane, que acaba parecendo até uma coisa mais limpa, mais européia, mais "cartesiana", apesar de todo o seu anticartesianismo explícito.

O caso de Edgard é bem interessante. Seu primeiro filme, um super-8, "Alice no País das Novilhas", é filho do imaginário drogueiro. Da contracultura. Um pop pobre, feito de diversão e dor. É o que já tínhamos, também, em "Meteorango". Outro filme do Edgard, "Lin e Katazan", é uma fábula terrível sobre a contracultura. Lin inventa um outro "sistema", vive em paragens mentais, ióguicas, despertando a fúria de um sujeito pedestre (a repressão) que o julga inatingível. Mas o "sistema" de Lin é um outro mundo - e neste, o mundo pedestre e real de todos nós, Katazan o mata. Parece que está ali toda a face impotente do sonho contracultural.

Interessante porque Edgard vai avançando. Vai amadurecendo o seu fazer, enquanto o faz. Em "Porta de Fogo", a montagem é menos nervosa. Edgard ganha ritmo. Podemos apreciar as belas imagens. E o tema é a guerrilha, a sina de Carlos Lamarca, metralhado pela ditadura no sertão da Bahia. Mas Edgard surpreende. Com uma trilha sonora candomblezeira, faz soar o discurso místico, cristão, popular-nordestino, promovendo o encontro de Lamarca e Lampião. Estão todos sob o signo do Conselheiro, da "utopia monástica" de Canudos, do messianismo sebastianista popular, muito mais do que de qualquer conversa maoísta, foquista, guevariana. O que está, acima de tudo, é o mito. O mito popular. E Edgard está mais para a contracultura do que para qualquer outra coisa. Como Sganzerla, ele e André Luiz vêem o mundo de uma perspectiva sempre contracultural.

Mas vamos continuar no óbvio. A ditadura militar se impõe em todos esses filmes. De forma avassaladora. É impressionante como Sganzerla, André e Edgard se colocam, movendo-se sob o signo cruel da ditadura. De um lado, querem esculhambar as forças da repressão. De outro, investem contra tudo que seja sinônimo de "establishment" (em "Meteorango", a instituição da "família" é alvo dos mais rudes ataques: na mesa de refeição, no velório, na festa de aniversário). A caretice pequeno-burguesa é atacada sem piedade. E o outro alvo é a esquerda, ridicularizada. Não deixam de ser filmes "rimbaudianos", até mais "rimbaudianos" do que "existencialistas". E estão todos encalacrados. Em "O Bandido da Luz Vermelha", a frase que ficou famosa: quando a gente não pode fazer nada, a gente avacalha, se avacalha e se esculhamba. Em "Meteorango": "é só uma questão de desordem; e a gente não entende mais nada".

Edgard bate com gosto na ditadura. Em "O Rei do Cagaço" (seu gosto por trocadilhos, paronomásias, ideogramas verbais - que o leva a jogar visual e anarquicamente com as palavras: "cultura começa com cu"), temos uma longa cagada (cagada, mesmo) ao som do Hino da Marinha. E a frase: "estamos aqui reunidos para tentar". Para tentar o quê? Cagar, é claro. Qual cisne branco em noite de lua... O Hino da Independência também soa em situações hilárias. É que Edgard quer morder, estraçalhar, os signos do "establishment". Nunca tinha me tocado para o quanto esses filmes todos eram tão violentamente "subversivos", para lembrar o clichê da época. Mesmo no maravilhoso "Super Outro", filmado já em tempos de democracia, um treinamento do exército é pura comédia.

O humor, o bom ou mau humor, está presente em todos esses filmes. Mas a barra não é nada leve. Baldwin dizia que ninguém pode fugir à patologia do país em que nasceu. Está certo. Mas ele olhava isso em termos contextuais. E a praga é que isso é verdade também conjunturalmente. É impressionante como nós, crianças utópicas da Era de Aquário, éramos agressivos, tristes e sofridos. "Meteorango", apesar de todos os seus lances divertidíssimos, é um filme desesperado, impotente e triste. A roda de maconha é deprimente, ao som de Moraes Moreira e Paulinho Boca de Cantor cantando "no céu azul, azul-fumaça, uma nova raça, saindo dos prédios para a praça, uma nova raça".

Ao mesmo tempo, como tudo é bonito. Em "Meteorango", as velhas ruas do centro de Salvador, na cidade alta, estão belíssimas. Os rapazes descem para o Sodré como se fossem os Beatles em "A Hard Day's Night" ou Belmondo em "A Bout de Souffle". O sonho final do "Super Outro", sobrevoando a Cidade da Bahia, é comovente. Mesmo porque aquela crença marcusiana nos poderes criativos dos excluídos tem uma beleza toda sua. Edgard aposta nos marginais, nos loucos, nos videntes, nos párias, nos excluídos. Uma lenda antiga? Sim: tão antiga quanto o mundo.

E vou ficando por aqui, que o espaço é curto (e, imagino, mais curta ainda é a paciência do leitor). Estou falando, no momento, de Rogério Sganzerla, André Luiz e Edgard Navarro. Poderia falar de outros. Mas, agora, este é o trio em questão. E uma coisa vincula profundamente os seus filmes: é que eles, filmando a cidade, filmam o "outro" que há nela. Filmam o elemento esquisito, que encarna a disrupção. Filmam a desordem, o elemento-caos que aflora disruptivamente dentro da ordem. É Dioniso, na mitologia grega. Mas é também o "unheimlichkeit" de Freud. É o hostil em cada canto, o estranho em cada esquina. A máscara que nos desmascara. Colocados em nosso contexto urbano brasileiro, este avivar do "unheimlichkeit" é o que talvez eles tragam de mais contundente e profundo. Porque é um "unheimlichkeit" situado, preciso, ideológico e, talvez, profético.

 

Antonio Risério é poeta e antropólogo baiano. 

Publicado originalmente no site Terra.


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