Esplendor Brasil

Rosea Nigra

HOMENS DO MAR

O jornalista Eduardo Sganzerla e a fotógrafa Mariana Branco mostram, num livro resportagem ilustrado, a luta dos pescadores do litoral capixabas para sobreviverem, na modernidade.

 

Homens do mar

Matéria publicada no jornal Gazeta de Vitória destaca o livro

25/08/2010 

Tiago Zanoli 

tzanoli@redegazeta.com.br

 

Há cerca de um ano, o jornalista Eduardo Sganzerla e a fotógrafa Mariana Branco aventuraram-se pelo litoral do Espírito Santo. Durante um mês, aproximadamente, os dois percorreram mais de 1,5 mil quilômetros dentro de um carro alugado e, ao longo dessa jornada, acompanharam de perto o dia a dia dos homens que tiram seu sustento da pesca artesanal no Estado e conheceram também as adversidades por eles enfrentadas.

As histórias de vida e de luta desses personagens são agora recontadas no livro "Pescadores Artesanais do Espírito Santo", que reúne reportagens e perfis escritos por Eduardo e as inúmeras fotografias feitas por Mariana, durante a viagem pelo litoral capixaba. Os autores ainda não têm previsão de quando será possível realizar um evento de lançamento por aqui, mas já doaram exemplares da obra para bibliotecas públicas e colônias de pescadores do Estado.

Natural de Santa Catarina, há décadas Sganzerla reside em Curitiba, no Paraná. Muito embora o mar esteja a mais de cem quilômetros de sua casa, a pesca sempre foi um tema que lhe seduziu. E foram amigos capixabas, entre eles os jornalistas Claudio Lachini e Oswaldo Oleare, que o trouxeram para cá. "Já estive no Espírito Santo diversas vezes, mas não conhecia a costa com detalhes. Eles me disseram que o litoral capixaba tinha muito para ser explorado", conta ele, que considera a Região Norte mais interessante, por ser menos habitada.

 

Reforço 

Mariana Branco, que também é designer, já havia trabalhado com Eduardo em outras publicações. Como ele precisava do reforço de um fotógrafo para realizar a empreitada, convidou a amiga. Ela aceitou o desafio sem pensar duas vezes e, através de suas lentes, registrou mais de 1,5 mil imagens.

Antes de iniciar a jornada ao longo do litoral capixaba, os dois autores fizeram uma visita à Ilha das Caieiras, em Vitória, ciceroneados por Oswaldo Oleare. É este, aliás, quem assina o prefácio do livro e fala sobre o passeio, no qual aproveitaram para fazer "uma fezinha no bicho" - caso acertassem no milhar, bancariam uma festança, com muita cerveja e robalo frito.

Apesar de não terem faturado a grana, esse primeiro contato com pescadores locais levou Eduardo e Mariana a mudarem a rota da viagem. "A gente idealiza um projeto, mas nem sempre a realidade é como a gente imagina. Quando fomos ao encontro daquela realidade, um novo horizonte se abriu para nós. Eu não conhecia, por exemplo, a experiência das desfiadeiras de siri da Ilha das Caieiras, cujo trabalho virou sustentáculo das famílias. Elas acabaram ganhando um capítulo à parte", afirma Sganzerla.

Ele faz questão de lembrar que "Pescadores Artesanais do Espírito Santo" não é um trabalho científico nem acadêmico, muito menos pretende esgotar o tema. Nas palavras de Sganzerla, são "instantâneos da realidade" de pessoas que, com poucos recursos, sobrevivem da pesca e resistem bravamente às adversidades (ocupação urbana desenfreada, poluição e pesca predatória). 

"A pesca industrial sempre foi feita por pequenos e médios empresários. Em Santa Catarina, por exemplo, vieram grandes empresas de fora, que se associaram às empresas médias, com grandes navios e tecnologia barra pesada", acrescenta o jornalista.

Ao longo do livro, os perfis dos pescadores revelam as dificuldades que enfrentam para organizar suas comunidades, conquistar seus direitos e melhores condições de vida e de trabalho. Lutas que são muito recentes, conforme mostram os autores.

Entre os exemplos, eles destacam o caso dos pescadores da Vila de Regência, em Linhares, onde eles uniram experiência e habilidade para criar um sistema cooperativo que pode ser considerado modelo não apenas no Espírito Santo, mas em todo o país, sob a liderança de Leones Carlos. Marcante é também a luta de Adilson Ramos Neves, o Russo, contra dois gigantes, em Ubu e Parati, no litoral Sul do Estado. A fim de defender o espaço dos pescadores, ele lidera uma batalha de Davi contra Golias.

 

Confira 

Eduardo Sganzerla e Mariana Branco

Pescadores Artesanais do Espírito Santo

Editora Esplendor 194 páginas

Quanto: R$ 60, em média

 

Pescadores são homens invisíveis 

Mais conhecido como Bi, Benedito Matias Porto, 57 anos, nunca estudou. Aprendeu a ler e escrever "na escola da vida". Presidente da Associação dos Maricultores, que abriga 96 famílias, em Conceição da Barra, ele conta, no livro, que os pescadores no Brasil vivem até hoje em um sistema arcaico, por falta de assistência dos poderes públicos. "Ele fez a melhor análise da situação, compreendendo a raiz do problema e descortinando o futuro. Bi usou uma expressão que achei fantástica, ao dizer que eles são ?pessoas invisíveis?, por cima das quais todo mundo já passou", afirma Sganzerla.

 

Símbolo da resistência dos homens do mar 

Aos 80 anos, José Pedro Rodrigues da Silva é considerado o último herdeiro de uma grande linhagem de pescadores artesanais na Praia do Suá, em Vitória. Há quase 70 anos, Zé Pedro dedica-se à pesca. Ele é um símbolo da resistência dos homens do mar à pesca predatória, à poluição e à urbanização descontrolada. "A poluição hoje em dia está demais. Peixe foi feito para viver na água limpa. Outra coisa que atrapalha são os grandes barcos de fora que aqui vêm pescar. Para quem vive da pesca artesanal, como eu, está tudo muito ruim", lamenta José. 


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