Esplendor Brasil

Rosea Nigra

CINEMA BRASILEIRO

Helena Ignez, musa debochada, linda e ousada

 

O que faz Helena Ignez marcante em nossa cinematografia é seu estilo único, em que transparece todo o escracho pregado pelo cinema dito "Marginal".

ATORES SÃO FIGURAS peculiares dentro do estudo do Cinema. Críticos em geral preferem analisar cineastas, já que estes possuem uma espécie de "coerência identificável", onde se percebem as suas particularidades enquanto autor. Já o público raramente se interessa pelo diretor, e procura os longas em que rostos famosos estão em evidência. Mas, muitas vezes, o ator é, literalmente, a cara do filme - embora sua trajetória geralmente siga por caminhos tortuosos, regidos pelos poderes do cachê. 

No entanto, quando se evidencia um ator-autor, pode-se estabelecer um diálogo maior de sua contribuição dentro de um panorama mais amplo. E assim, pela primeira vez em sua trajetória, a MFL resolve homenagear não um cineasta, mas sim dois atores emblemáticos dentro de seus contextos: um é o coisa-nossa "Godofredo Quincas" (veja mais à frente no catálogo); e a outra é ninguém mais ninguém menos que Heleza Ignez, testemunha ocular e sensorial de todas as transformações do cinema moderno brasileiro. 

O que faz Helena Ignez marcante em nossa cinematografia é o estilo único de sua encenação, em que transparece todo o escracho pregado pelo cinema dito "Marginal". Escracho este não gratuito; uma espécie de upgrade da Chanchada pregado por Rogério Sganzerla (de quem é viúva) e seus asseclas. "Quando a gente não pode, a gente avacalha", diria o Bandido da Luz Vermelha, lema seguido à risca pela gentalha maravilhosa que cercava o udigrudi nacional. Sendo assim, vide o exemplo da Belair, produtora de vida efêmera montada por Sganzerla e Júlio Bressane em 1970, que foi uma verdadeira explosão criativa contra a adversidade, já que criou seis longas em três meses. Ou seja, não muito diferente da comédia carioca Carnaval Atlântida, de 1954, em que os produtores não conseguem fazer um épico romano, então fazem um carnaval mermo. 

E Helena foi a musa dessa potencialidade. Debochada, linda, engraçada, ousada etc., ela se tornava a porta-voz da galera, dando a cara a tapa, vomitando sangue, preenchendo a tela e sendo cúmplice da autoria de quem lhe dirigia. Mas a sua maturidade como atriz, que pode ser comprovada nos três longas selecionados para a MFL, teve todo um crescendo coerente, que se confunde com a própria modernidade do cinema brasileiro. Afinal, ela foi a protagonista de O Pátio, o primeiro curta-metragem de Glauber, com quem foi casada. Depois participou de dois dos principais precursores do Cinema Novo, o baiano A Grande Feira e o carioca Assalto ao Trem Pagador, para depois participar do Cinema Novo de fato, em O Padre e a Moça. Sendo a "moça" do título, Helena se revela uma ótima atriz dramática, num papel totalmente diferente da linha em que ficou consagrada. 

Após a ditadura, sente-se um hiato na carreira de Helena. Mas, agora, voltando com força, investe também na vocação de diretora. Tanto que incluímos em sua homenagem dois de seus curtas (Reinvenção da Rua e A Miss e o Dinossauro), bem como o trailer de seu primeiro longa-metragem (Canção de Baal). 

Vida longa à Helena Ignez e, conseqüentemente, a todo o cinema brasileiro. 

Autoro do texto: CHRISTIAN CASELLI


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